domingo, 21 de setembro de 2014

A busca da Cavala

Conforme orientado pelo meu Xará (Rodrigo Ganimi) busquei diversas motos no estado de São Paulo, já que no Rio a quantidade de motos, o preço e as condições das motos não eram tão atrativas quanto em São Paulo. Feitas algumas pesquisas, acabei optando pelo modelo Premium, no qual a moto vem com controle de tração, controle de suspensão, aquecedor de manoplas, medidor de pressão dos pneus,  ABS, etc. 

Separei três modelos sendo que no final, após as devidas negociações, acabei encontrando a moto que eu queria. Meus olhos em São Paulo era o xará, que se encarregou de ir até a Caltabiano conferir o estado da cavala para mim. De imediato me ligou dizendo que a moto estava nova e que no final de semana poderia ir lá pegar a bichana. 

Resolvidos os trâmites do seguro, na sexta-feira entrei no avião e me mandei para Sampa para buscar a minha nova companheira de estrada.





Chegando em São Paulo fui direto para casa do xará, já que no dia seguinte iríamos acordar cedo para ir a loja da Caltabiano. Aproveitamos a ocasião para falarmos de moto, da viagem do xará pelo Atacama no ano anterior, das roupas adequadas para uma longa viagem, dos acessórios (GoPro, GPS, Garmim Zumo, Scala Rider G9), preparo físico e etc, tudo regado a uma cerveja gelada, um bom vinho e uma recepção nota mil que o xará preparou. Depois de muito prosear, fui deitar com aquela pinta de ansiedade que naturalmente tomava conta da minha cabeça em razão do retorno para o Rio no dia seguinte: Como vai ser a viagem? Será que vou me adaptar a moto? Será que não é arriscado encarar de cara uma Dutra com a cavala considerando que nunca pilotei uma moto acima de 300cc? Para o xará não havia qualquer problema, pois me dizia que a moto era extremamente segura, boa de curva e sobrava tecnologia.

Bom, no dia seguinte acordamos, tomamos café da manhã, deixei minha pequena mala na casa do xará, pois a cavala não tinha Top Case e não tínhamos nenhuma aranha para prender ela no banco, seguimos para Caltabiano e chegando lá, estava ela me esperando.



A minha cavala.
BMW R1200 GS Premium


Show Room da Caltabiano/SP


A criançada já admirando seus brinquedos do futuro.



Por volta das 11hs eu estava saindo da Caltabiano sentido Niterói/RJ. Meu xará achou melhor me acompanhar de carro até a entrada da Ayrton Senna, de onde eu seguiria sozinho para casa. Quando subi na moto confesso que minhas pernas tremiam um pouco, afinal eu estava no meio do trânsito de São Paulo sem nunca sequer ter subido numa GS e com quase 500km para encarar pela frente. Os primeiros quilômetros foram de total adaptação, pois as marchas mais longas, a ergonomia, a bolha, o peso da moto, a suspensão macia, etc, tudo era diferente da minha magrela. Seguimos devagar pela Marginal Tietê até um posto situado bem na entrada a Ayrton Senna. Chegando lá, abasteci a cavala despedi do xará e da criançada e segui rumo ao Rio. 

Após alguns kilometros pela Ayrton Senna, depois de passada a fase de adaptação, a sensação foi de puro êxtase, daquelas de você gritar para si mesmo: "Puta que pariu, que moto é essa mer'mão!!!!" A cavala planava pela quatro pistas da Ayrton Senna, o motor boxer mostrava todo seu vigor, a suspensão em modo sport era totalmente confortável, o banco da moto me fazia sentir na poltrona da minha casa, o bolha aliviava a pressão do vento sob o capacete, tudo era perfeito e eu dizia para mim mesmo: isso que é moto!

A tocada foi tranquila até a primeira parada no Grall de Guaratinguetá/SP, quando parei para esticar o esqueleto e almoçar. Me vi naquele momento preocupado de como eu iria colocar aquela moto enorme no descanso central, pois no dia anterior, depois de algumas cervejas, desci com o xará até a garagem para treinarmos na moto dele, o que acabou não sendo muito producente por conta do meu teor alcoólico, eu confesso. Depois de alguns esforços e com ajuda da rigidez da minha bota, acabei conseguindo colocar a bichana no descanso central.








Rango leve para não ter sono.






Mala tanque que ganhei de presente do xará


A mala tanque foi de extrema utilidade em minha primeira viagem com a cavala, pois na hora de pagar os pedágios utilizava uma caixa de óculos com dinheiro trocado que ficava dentro dela, entregando a mesma para o caixa, não sendo necessário manusear o dinheiro com luvas ou mesmo ter de tirá-las para poder pagar. Não pouco incomum é alguns motociclistas de big trails deixarem cair a moto por desequilíbrio quando param nos pedágios para pegar dinheiro na jaqueta ou calça. Sendo assim, fica a dica que aprendi com o xará e utilizo até hoje em qualquer saída com a cavala, independente da distância.

Cheguei em Niterói por volta das 5hs da tarde, ainda de dia. A viagem foi ótima e achei impressionante como cheguei com a carcaça inteira, muito diferente de quando rodava poucos kilometros com a magrela e ficava todo quebrado.

O adeus a magrela

No post anterior comentei brevemente sobre a violência e altos índices de roubos de motocicletas. Com relação a minha moto XRE as notícias surgiam a todo momento (roubaram a XRE de fulano ontem no portão de casa, roubaram a XRE de beltrano saindo do shopping). Muito embora você de alguma forma possa crer que isso não irá lhe acontecer, o fato é que isso não passa de uma falsa ilusão, pois a partir do momento que você na está na rua, não tem hora e não tem dia, você está correndo risco sim.

Me recordo que era uma sexta-feira no final da tarde, momento em que os amigos trocavam mensagens pelo grupo de moto no WhatsApp, criado para agendar as viagens, postar fotos, etc, quado li uma mensagem de que o irmão de um amigo nosso havia acabado de ser assaltado na Niterói-Manilha e tomado um tiro pelas costas mesmo após ter entregue a sua moto XRE. No momento fiquei muito assustado e uma coisa não saiu mais de minha cabeça: vou vender minha XRE. 

Depois tive notícia que o rapaz estava hospitalizado e passava bem, mas no retorno do trabalho para casa já estava decidido que não ficaria mais com a magrela. Cheguei em casa, conversei com minha esposa e ela foi também incisiva: vende a moto, não ande mais nela. No dia seguinte, no sábado, levei a magrela para lavar e quando cheguei em casa tirei as fotos para colocar no anúncio do Web Motors. 

As fotos do anúncio.













Passados 7 dias minha moto foi vendida e a partir daquele momento começaram as dúvidas sobre qual moto pegar para realizar a viagem ao Ushuaia. Foram diversos os modelos analisados, mas sempre que pensava em tomar uma decisão, voltava para a rainha das estradas (a BMW GS 1200). Embora eu tenha cogitado comprar uma GS 800, eu sabia que o meu problema com roubos e furtos não seria minimizado, já que esta moto, pela vesatilidade dela (alturaxpesoxpotência) não era nem um pouco menos visada que a XRE. 

Após um mês de pesquisa e muita ajuda e incentivo do meu amigo Rodrigo Ganimi, acabei encontrando a moto que iria me acompanhar pelas estradas da América Latina.

O sonho do Ushuaia e a BMW 1200 GS

Na medida que você vai pegando gosto pela coisa, a vontade de desbravar caminhos mais inóspitos fica cada vez maior e o espírito aventureiro nos toma conta como se fosse uma voz oculta nos dizendo "vá em frete, faça, se jogue, não existe o amanhã e sim o hoje". 

A internet é um verdadeiro quintal de sonhos, pois aqui podemos viajar junto com os outros amigos, conhecendo os lugares, as estradas, as motos, os perrengues, as dicas, ou seja, tudo aquilo que buscamos vivenciar um dia em uma viagem de moto, seja qual destino for. Visitando blogs de outros amantes do motociclismo pude constatar que o Atacama é um local surpreendente, com paisagens exuberantes, clima peculiar e com uma pitada forte de aventura em razão do desafio da altitude, porém, o Ushuaia (tierra del fuego) surgiu com uma paixão a primeira vista, pois fiquei deslumbrado com o lugar, pela localização geográfica (cidade mais a austral do mundo) e pelo clima frio que eu adoro, embora não me adapte bem. 

Algumas fotos do Ushuaia encontradas no Google.






















Junto com o Ushuaia nasceu a necessidade de trocar a minha magrela pela moto na qual eu iria tornar o sonho de viajar para a cidade mais austral do mundo realidade: a BMW 1200 GS. Confesso que a ideia de empatar uma grana tão alta numa moto me desanimava um pouco, mas era só ler novamente os relatos das viagens de alguns colegas que eu retomava o projeto de adquirir a minha GS. Claro que em razão do preço, cogitei comprar uma Suzuki V-Stron ou até mesmo uma Honda Transalp, mas quando me aprofundava nas pesquisas e nos relatos de outros motociclistas, podia perceber que para uma viagem de tal envergadura a moto era um fator decisivo, pois dependendo dela a viagem poderia se tornar de uma hora para outra um verdadeiro tormento ou problema. Como não queria correr esse risco, vi que o jeito era partir para BMW, fosse GS 800 ou 1200. Bom, mas antes eu tinha que vender a minha magrela que naquela altura já estava com aproximadamente 8.000 km rodados (pouco, para o tempo que fiquei com ela). O entusiasmo era enorme, a todo tempo procurava motos na internet e fazia as contas para realizar o sonho da GS.

Infelizmente aqui em nosso país uns dos grandes problemas de qualquer grande centro é a violência. Em minha cidade (Niterói/RJ) as notícias sobre furtos e principalmente roubos de motos eram constantes. Só fiz seguro de minha XRE no primeiro ano, sendo que no segundo coloquei um alarme em me incluí no grande grupo dos motociclistas que andavam contando com a sorte de não ser abordado com uma arma de fogo no trânsito. Apesar da dura realidade, continuava andando com minha magrela e fazendo as minhas pequenas viagens nos finais de semana, já que o projeto do Ushuaia ainda não tinha saído do papel ou melhor, do meu bolso.










Treinamento solo

Depois de alguns passeios com os amigos, surgiu a vontade de fazer um roteiro solo no domingo. Queria saber como eu ia me comportar sozinho na estrada, ou seja, a velocidade que eu ia me sentir confortável, o ritmo das paradas X kilometros percorridos, o estado físico e psicológico depois vários kilometros e como lidaria com uma possível pane, etc. 

Como sempre fazia, acordei cedo em um domingo de sol, coloquei toda a roupa, separei as máquinas fotográficas, limpei a viseira do capacete, tomei uma café da manhã leve para não bater um desânimo depois alguns kilometros e fui sentido Nova Friburgo, estrada que percorro frenquentemente e já estou habituado.




Ao fundo a serra de Teresópolis e Friburgo.




Sede do Parque Estadual do Três Picos localizado na subida da serra de Friburgo, situado logo após o pedágio de Boca do Mato. 


Maquete reproduzindo toda a área protegida do parque e ao fundo as fotos da raras espécies de animais encontrados no entorno do parque.




Entrada do Parque Estadual do Três Picos.





O revigorante e inspirador contato com a natureza. 




Jequitibá de aproximadamente 1000 anos e 40 metros de altura.






Parada no sítio de um amigo. Estrada Serra-Mar que liga Lumiar até Casemiro de Abreu.


Posto em Casemiro de Abreu. Momento de esticar as pernas e hidratar.


Estrada que liga Silva Jardim a Araruama. Calor forte às 15hs da tarde.



A magrela sofrendo para não fazer feio na estrada. Velocidade de cruzeiro na faixa dos 110km/h, mas confesso que cheguei meio quebrado em casa nesse dia, pois com vento, sol forte e um motorzinho de 300cc que costuma gritar após os 120km/h, não tinha como o resultado ser diferente.


Parada na serrinha de Maricá e hodômetro parcial da magrela marcando 299.2 km rodados.

Treinamento com os amigos

Depois que fiz minha primeira viagem de moto em maio de 2012 (post anterior), decidi que o acumulo de kilometros rodados era fundamental caso quisesse fazer uma grande viagem. Os domingos eram destinados para o "treinamento", de forma que eu só não viajava se estivesse chovendo. Estando frio ou calor, ficava ansioso para colocar a magrela no asfalto. Com os amigos também não tinha "tempo ruim", pois o negócio era praticar a "mototerapia".

Nessa altura já falávamos sobre possíveis grandes viagens, como Ushuaia e Machu Picchu, incluindo a troca das motos e tal. Eu era o mais animado, pois queria já marcar a data de saída, planejar o roteiro, criar planilhas de gastos e check list de acessórios para viagem. Meus amigos Alex e Rogério sempre ficavam naquela resposta vaga e misteriosa, conhecida como "vamos ver". 

Nessa época meu amigo e xará Rodrigo Ganimi já estava planejando e escrevendo seu blog (minhamotoeeu), o que serviu como intenso aprendizado e motivação para executar as longas viagens pela América do Sul  e quem sabe um dia para o Alasca (também está no projeto, não tenho ideia para quando, mais está). Aliás devo grande parte da compra da minha moto atual (BMW R1200 GS), acessórios para moto, inspiração para estar aqui escrevendo e compartilhando desse mundo em duas rodas com outras pessoas que têm o mesmo sonho ao amigo Rodrigo. Valeu xará! Para os amantes do motociclismo, não deixem de visitar o blog dele sobre a viagem ao Deserto do Atacama. 

Abaixo, seguem algumas fotos do dito "treinamento" com os amigos.



Amigo Alex ligando para esposa e avisando que está tudo bem. Sempre que parávamos para abastecer ou comer alguma coisa, tínhamos o costume de ligar para as patroas, pois essa era a condição de podermos ganhar o domingo inteiro colocando as meninas na estrada. 



Venda de frutas na subida da Serra das Araras sentido São Paulo.


Os amigos Alex e Rogério.


Eu e Rogério.


Nossas meninas no acostamento.


Nesse dia fomos até Volta Redonda/RJ e voltamos, ou seja, bate volta rápido e prazeroso.


Roteiro desse dia.


Viagem até Paty do Alferes durante a Festa do Tomate. Foto tirada no mirante da serra de Paty. Na foto os amigos Alex e Miranda.




 





Parque de Exposições de Paty do Alferes.




Eu, Alex e Miranda. 



Roteiro desse dia.